Em um momento em que o mundo busca renovar seus modelos produtivos, a bioeconomia surge como uma estratégia capaz de transformar recursos naturais em oportunidades econômicas, sociais e ambientais. No entanto, apesar de seus avanços e da promulgação da Estratégia Nacional de Bioeconomia 2024, o Brasil captura apenas uma fração do potencial que abriga em sua vasta biodiversidade e tradições produtivas.
Segundo a Estratégia Nacional de Bioeconomia, esse modelo define-se como um modelo de desenvolvimento produtivo e econômico baseado no uso de recursos naturais de forma sustentável, regenerativa e conservacionista, integrando ciência e saberes tradicionais para gerar bens, serviços e benefícios socioeconômicos com justiça e ética. A Embrapa reforça que a bioeconomia é um modelo de produção industrial baseado no uso de recursos biológicos, voltado à substituição de recursos fósseis e à oferta de soluções sustentáveis.
De acordo com a OCDE, a bioeconomia movimenta cerca de € 2 trilhões ao ano e gera aproximadamente 22 milhões de empregos globalmente, com projeções de crescimento que podem elevar seu valor a US$ 30 trilhões até 2050. Além disso, ela está no cerne de pelo menos metade dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, impulsionando segurança alimentar, saúde e energia limpa.
Esses números revelam a magnitude de uma economia que vai muito além de biocombustíveis, abrangendo bioplásticos, biopesticidas, biofármacos, cosméticos e inúmeros outros bioprodutos.
O Brasil apresenta condições únicas para assumir protagonismo na bioeconomia global. Suas riquezas naturais e infraestrutura consolidada oferecem base para cadeias de valor de alta complexidade.
Esses fatores são complementados pelo reconhecimento do Brasil no G20 e pelos marcos recentes em políticas públicas, como a Estratégia Nacional de Bioeconomia 2024.
O Decreto nº 12.044/2024 instituiu a Estratégia Nacional de Bioeconomia como política de Estado, com o objetivo de coordenar iniciativas entre governo, setor privado e sociedade civil. A criação da Comissão Nacional de Bioeconomia (CNBio) e o desenvolvimento do Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio) visam garantir coerência e participação ampla em sua implementação.
Os princípios que orientam essa política incluem sustentabilidade ambiental, justiça social, inclusão de povos indígenas e comunidades tradicionais, inovação e transparência. A estratégia está articulada a outros instrumentos, como o Plano de Transformação Ecológica e a Nova Indústria Brasil, fortalecendo a imagem do país na transição verde.
Apesar dos avanços, ainda existem gargalos que limitam a materialização do potencial bioeconômico. O financiamento de longo prazo para pesquisa e desenvolvimento de tecnologia biológica é insuficiente, e a atratividade de capitais privados depende de clareza regulatória e garantias jurídicas.
As cadeias de valor da bioeconomia exigem integração entre pequenas comunidades locais e grandes players industriais, o que demanda arranjos de governança capazes de equilibrar interesses e garantir a distribuição equitativa de benefícios. Além disso, a falta de infraestrutura logística em regiões remotas, sobretudo na Amazônia, aumenta custos e dificulta a escala de projetos inovadores.
Para que a bioeconomia seja um vetor de desenvolvimento sustentável e inclusivo, especialmente na Amazônia, é preciso articular políticas, investimentos e parcerias de forma estratégica.
Essas ações devem ser coordenadas pela CNBio e executadas em conjunto com instituições de pesquisa, setor privado e organizações da sociedade civil. O engajamento de setores financeiros, por meio de critérios ambientais, sociais e de governança (ESG), é fundamental para direcionar recursos a projetos de alto impacto.
O Brasil dispõe de um cenário promissor para alavancar sua bioeconomia, gerando riqueza, empregos e conservação ambiental. Ao integrar ciência, tecnologia e saberes tradicionais, podemos construir cadeias de valor resilientes e inclusivas.
É hora de unir esforços para superar entraves de financiamento e fortalecer modelos de governança que coloquem comunidades locais no centro das decisões. Somente assim transformaremos a vasta biodiversidade brasileira em um motor de desenvolvimento sustentável.
A bioeconomia não é apenas uma oportunidade econômica, mas um compromisso com o futuro do planeta e das gerações que ainda virão. O momento de agir é agora: juntos, podemos revelar o potencial inexplorado de um Brasil verdadeiramente sustentável.
Referências