Em um momento de profundas transformações climáticas e tecnológicas, a energia nuclear ressurge com força renovada, conquistando atenção global. Considerada outrora uma solução energética controversa, ela volta ao centro das políticas públicas como ferramenta climática de grande alcance e garantia de suprimento firme.
No pós-crise do petróleo dos anos 1970, a nuclear despontou como solução para reduzir dependência de combustíveis fósseis e fortalecer a segurança energética. Contudo, eventos traumáticos como Three Mile Island (1979), Chernobyl (1986) e Fukushima (2011) abalaram irreversivelmente a confiança pública, freando novos empreendimentos.
Durante as décadas seguintes, muitos países abandonaram ou estagnaram seus projetos nucleares. Alemanha e Bélgica anunciaram saídas gradativas, enquanto França e Reino Unido mantiveram investimentos. Quase 15 anos após Fukushima, porém, a crise climática global e novas demandas elétricas redefiniram o papel da nuclear: não mais apenas fonte de base, mas aliada estratégica em metas climáticas e suporte à transformação digital.
Hoje, a energia nuclear é responsável por cerca de 10% da eletricidade mundial, sendo a segunda maior fonte de baixa emissão, atrás apenas da hidrelétrica. Em 2025, registrou-se um novo recorde de geração global, e a AIE projeta 2.959 TWh para 2026, nível inédito desde 1972.
Em 2025, a capacidade global caiu em 1,1 GW diante de apenas dois novos reatores e sete desligamentos. Contudo, 2026 promete forte recuperação, com 15 reatores e quase 12 GW adicionais. Mais de 70 GW estão em construção, o maior volume em três décadas.
Relatórios indicam que, até 2030, metade da eletricidade mundial virá de renováveis e nuclear. Grandes empresas de tecnologia já firmam contratos ou investem em reatores, buscando energia 24/7 de baixo carbono para alimentar data centers e aplicações de IA.
Os Estados Unidos reencontram o caminho da expansão nuclear. Planos federais visam estender a vida útil de reatores, elevar capacidade de 100 GW para 400 GW até 2050 e apoiar SMRs avançados com US$ 800 milhões em cofinanciamentos. Sítios de usinas a carvão podem abrigar até 174 GW de nova capacidade.
A China lidera em construção: responde por quase metade dos canteiros ativos. O país projeta mais de 50 GW adicionais até o fim da década, consolidando-se como principal impulsionador global. Seu compromisso faz parte de uma estratégia mais ampla de autonomia energética e redução de emissões.
Na Europa, a França reforça sua dependência nuclear, com 74% da eletricidade proveniente de usinas atômicas. O setor é pilar da política energética nacional, apoiado por investimentos públicos e decisões estratégicas para repotenciar unidades antigas.
Embora o movimento ascendente seja robusto, desafios persistem. A gestão de resíduos radioativos, altos custos iniciais e resistência política ainda exigem soluções inovadoras. Projetos de reatores de quarta geração e SMRs buscam maior segurança, menores prazos de construção e modularidade.
O compromisso internacional de triplicar a capacidade nuclear até 2050 — firmado na COP28 e reafirmado na Nuclear Energy Summit 2026 — demonstra ambição global. Com adesão de 38 países, essa meta é peça-chave em cenários de net zero.
À medida que avançamos, é fundamental equilibrar inovação, segurança e diálogo público. A energia nuclear não se apresenta mais como simples herança do passado, mas como protagonista de um futuro sustentável, capaz de conciliar desenvolvimento econômico e proteção ambiental.
O renascimento da energia nuclear é um fenômeno multifacetado, impulsionado por urgências climáticas, geopolíticas e tecnológicas. Ao integrar-se a energias renováveis e atender demandas crescentes, ela oferece solução de longo prazo para desafios contemporâneos. Inspirar confiança e avançar em inovação são passos essenciais para que essa nova era nuclear seja segura, eficiente e amplamente aceita.
Referências